sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Portugal desenhado a ferro e contradições

Criei esta imagem para o Blog, com a ideia de Remar numa Maré de ideias e de episódios que vão aparecendo a cada dia.



 Sentei-me à mesa a pensar no passado, e vi um mapa de Portugal desenhado a ferro e contradições.

Sou neto de quem fez as malas e partiu para França à procura de pão e dignidade, num tempo em que, por cá, a palavra livre se pagava cara. Sou filho de quem foi empurrado para o Ultramar, carregando no peito uma guerra que não escolheu, mas que lhe roubou anos irrepetíveis da juventude. E sou também neto de um responsável da CUF que atravessava diariamente as portas do escritório do Fundão sem que o regime lhe perturbasse a sua rotina, enquanto a História tratava de redesenhar o destino dos proprietários daquele império industrial.

Cresci a ouvir estas memórias e aprendi cedo que a verdade de um homem raramente coincide com a verdade do seu vizinho. Talvez por isso me detenha tantas vezes a observar o presente através das lentes do passado. Porque a História muda de cenário, muda de bandeiras e muda de idioma, mas raramente abdica dos seus velhos vícios.

Esta semana vi brasileiros a idolatrarem o seu presidente. Um líder que promete prosperidade ao povo desde 1978, décadas depois, continua a ser apresentado como a solução para problemas que persistem. O que mais me surpreende não é a promessa em si. Promessas sempre existiram. O que me impressiona é a capacidade humana de continuar a acreditar nelas, mesmo quando a realidade insiste em apresentar uma fatura diferente.

Vejo artistas, comentadores, jornalistas e até emigrantes, pessoas que deixaram a sua terra precisamente porque procuravam oportunidades que nela não encontravam, defenderem com fervor aquilo que consideram ser a resposta para todos os males. E pergunto-me quantas vezes a esperança legítima se transforma em devoção acrítica.

Há realidades que dispensam explicações longas. Estão expostas para quem as quiser ver. Talvez essa seja a ironia permanente da condição humana: a procura incessante de um salvador da pátria, mesmo quando esse salvador necessita da existência dos problemas para continuar a apresentar-se como solução.

Resta-nos observar, recordar e pensar. Porque a memória não serve para escolher heróis. Serve para evitar que entreguemos a nossa capacidade de julgamento a quem quer que seja.

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